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Pedro Wongtschowski é presidente do Conselho de Administração da Ultrapar

Em direção à indústria do futuro

Para o presidente do Conselho de Administração da Ultrapar e líder da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), Pedro Wongtschowski, falta ao Brasil um programa nacional, capaz de articular iniciativas e assegurar projetos de envergadura compatível com os desafios da 4ª Revolução Industrial

Todas as atividades econômicas são geradoras de emprego, renda e de produtos e serviços fundamentais à sociedade. Porém, nem todas têm a mesma capacidade de influenciar o dinamismo do sistema econômico como um todo. Ainda mais desigual é a contribuição de cada uma na construção do crescimento de longo prazo e do desenvolvimento, que em boa medida é decorrente da inovação tecnológica. Este é um dos principais atributos da indústria, embora esteja longe de ser o único.

Por ser capaz de estabelecer um sistema interligado e complexo de geração de valor e de progresso técnico que transborda para além de suas fronteiras, a indústria não apenas impulsiona o nível de atividade da economia, como cria novas tecnologias, novos bens e novos métodos e meios de produção para a si própria e para os demais setores, contribuindo para o avanço da produtividade do sistema produtivo como um todo. Assim, ter uma indústria robusta e moderna é elemento central para o desenvolvimento dos países.

Mundialmente, a OCDE avalia que a indústria de transformação responde por nada menos do que 70% dos gastos empresarias em pesquisa, desenvolvimento e inovação. No Brasil, a indústria também aparece como o grande centro realizador de atividades empresariais de P&D, em especial, a indústria de transformação, cuja participação chega a 71%, segundo o IBGE.

Mesmo fundamental, o esforço inovador da indústria não resume todas as suas contribuições. No contexto brasileiro, o setor é responsável pela arrecadação de 27% dos impostos e suporta uma carga tributária de 45% do seu valor adicionado, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN). Serviços, que é a atividade que mais arrecada (40% do total), têm uma carga tributária muito inferior à industrial (23%). No emprego, os postos gerados pela indústria de transformação representam 15% do trabalho formal, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), pagando salários acima da média nacional.

Além disso, a indústria quando cresce alavanca outras atividades econômicas devido a suas relações intersetoriais. Para produzir, a indústria brasileira total demanda insumos em que quase metade são fornecidos por outros setores que não a própria indústria: 9% são produtos agropecuários e 34% são serviços. Quando olhamos para o investimento, novamente a indústria se destaca. Em 2013, ano em que a taxa de investimento foi recorde no período recente, enquanto a economia como um todo investiu 20,9% do PIB, a indústria geral apresentou uma taxa de investimento de 24,1% do seu PIB setorial, segundo estimativa do IEDI. Já no comércio exterior, as exportações de produtos manufaturados permaneceram majoritárias, cerca de 70% de nossa pauta exportadora, em média, entre 1997 e 2017, segundo também estimativas do IEDI realizadas com base em metodologia da OCDE.

Por todas essas razões, a indústria não apenas teve um papel relevante na história do desenvolvimento do Brasil bem como de muitos outros países, mas também permanece sendo indispensável para a superação dos desafios contemporâneos com os quais as sociedades se deparam. Por isso, governos de países desenvolvidos e de países emergentes vêm recentemente multiplicando suas iniciativas e estratégias para o fortalecimento industrial. Não custa lembrar que foi justamente de uma dessas estratégias que surgiu o conceito de Indústria 4.0, que só há pouco passou a ganhar alguma importância no Brasil. É sob este termo que a Alemanha passou a designar sua indústria do futuro.

A Indústria 4.0, ou alternativamente Manufatura Avançada refere-se a uma revolução das mais profundas nas atividades produtivas, tendo como substrato o desenvolvimento e utilização de tecnologias tais como sistemas ciber-físicos, internet das coisas, manufatura aditiva, big data, robótica avançada, inteligência artificial, novos materiais etc. A indústria deve se reinventar neste processo de avanço tecnológico, mas também permitirá que os demais setores se transformem ao produzir uma nova geração de máquinas, equipamentos e insumos.

Esta é uma agenda em que estamos muito atrasados, embora ações venham sendo tomadas por diferentes instituições, públicas e privadas, no sentido de compensar o tempo perdido. O que nos falta ainda é um programa nacional, capaz de articular as inúmeras iniciativas e assegurar projetos de envergadura compatível com a magnitude dos desafios da Quarta Revolução Industrial. O Brasil deve almejar não somente a difusão das novas tecnologias em sua estrutura produtiva como também o papel de provedor de soluções 4.0 a partir das competências acumuladas em seu sistema de inovação.

A grave crise pela qual o país passou nos últimos anos e que ainda não superou completamente, explica apenas parte do nosso atraso, pois não é de agora que a indústria brasileira vem enfrentando inúmeras adversidades, em função do relativo isolamento do país em relação ao resto do mundo, das distorções em sua estrutura tributária, dos desalinhamentos da taxa de câmbio e dos longos episódios de taxas de juros elevadas, que minaram o investimento e envelheceram nosso parque industrial. Estes e muitos outros obstáculos precisam ser superados para que possamos entrar plenamente na era da Indústria 4.0.

Da Agência CNI de Notícias

 

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